Vestiu um terno. Calçou um sapato. Escovou os dentes. Penteou os cabelos. Cortou as unhas. Passou perfume. Colocou o relógio de pulso. Consultou o espelho, e verificou se estava faltando algo. Parecia tudo em ordem. Quis usar óculos, mas desistiu. Pensou todas as coisas que deveria pensar naquele momento. Fez o roteiro, traçou os discursos e criou metas. Estava quase no horário. Pensou em fumar, mas pensou que talvez não fosse adequado. Saiu e andou até o ponto de ônibus, e esperou. Esperou, e continuou esperando. Consultou o relógio de pulso, mas não havia nenhum. Tinha absoluta certeza de tê-lo posto em seu pulso. Agora não tinha certeza de mais nada.
domingo, 14 de agosto de 2022
quarta-feira, 3 de agosto de 2022
Um dia para lembrar
Muitas vezes esqueço como é não ser. Até iludo o céu e as louças sujas de que nada é. Isso não dura muito. Não dura nada. Todo dia é uma enganação para quem não sabe quais as cores verdadeiras das roupas, do uniforme, do traje, da máscara...
Todo dia deveria ser um dia para lembrar, nem sempre pelo lado bom. Deveria ser lembrado, em geral, para não ser repetido, quando não devesse ser repetido. Às vezes me arrependo de não ter ido a lua. A vejo da janela e me arrependo sem motivo algum.
Hoje eu deveria ter abraçado mais. Ter rido mais das histórias fantásticas que minha filha contou. Ter visitado algum parente que nunca me convidou, ou algum que de tanto convidar perdeu a esperança.
Acho que falta esperança. Esperança em dias inúteis em que se acorda com vontade de caminhar de mãos dadas sem rumo pelas ruas ensolaradas. Esperança de ouvir um riso gratuito e sentir um abraço forte que rabisca a alma de múltiplas cores. Esperança de poder não ser o que se é todos os dias. Esperança de não estar cansado e abatido o tempo todo. Esperança de não estar com fome ou medo do amanhã. Esperança de viver.
Hoje acordei arrependido de tudo que fiz, não fiz e não farei. É o hiperarrependimento! Hiperarrependimento do tempo em todas as dimensões, das coisas, dos eventos, das tragédias, das farsas, das mentiras, das verdades, do mundo, da distopia real, da natureza morta de cada dia vivo.
Amanhã é outro dia, e espero poder acordar.