sexta-feira, 7 de julho de 2023
CARTA AO PAI
Pensei em como começar.
Por muito tempo
esse foi meu grande
desafio.
Como falar da pessoa
que nunca me foi
nada?
Por quem eu nunca
senti absolutamente
nada?
Como falar da pessoa
que nunca foi meu
pai?
Da pessoa que nunca
foi senão um
ninguém com rosto e sem
voz?
Meu pai sempre foi o
vazio ocupado pela ausência,
enquanto
a presença da aflição
era maior que a solidão
de não ter nada.
Meu pai nunca foi
meu, muito menos pai.
O pai, que nunca foi meu,
continuou não sendo
até o fim.
Ele sabia desocupar
espaços.
Ele sabia despreencher
vidas.
Ele sabia desescrever
histórias.
Eu sempre soube disso,
mas viver isso ainda
dói.
Viver isso cobra
um preço que tenho
que pagar, embora
eu nunca tenha tido
direito a nada.
Eis a verdadeira
dívida de sangue.
A dívida que pago
por não ter tido
nada.
Pagarei? Não tenho
escolha! Nunca,
nunca tive.
Quando meu sangue
secar, quem sabe
essa dívida suma,
e eu possa morrer em vão.
Não há uma história aqui,
e essa não-história
é a história de todas
as coisas que nunca
aconteceram e viraram
memórias
para uma carta
que foi escrita
para todos que
são o que não são.
Assinar:
Comentários (Atom)