Prijivus
sexta-feira, 31 de maio de 2024
Pecado
sexta-feira, 7 de julho de 2023
CARTA AO PAI
Pensei em como começar.
Por muito tempo
esse foi meu grande
desafio.
Como falar da pessoa
que nunca me foi
nada?
Por quem eu nunca
senti absolutamente
nada?
Como falar da pessoa
que nunca foi meu
pai?
Da pessoa que nunca
foi senão um
ninguém com rosto e sem
voz?
Meu pai sempre foi o
vazio ocupado pela ausência,
enquanto
a presença da aflição
era maior que a solidão
de não ter nada.
Meu pai nunca foi
meu, muito menos pai.
O pai, que nunca foi meu,
continuou não sendo
até o fim.
Ele sabia desocupar
espaços.
Ele sabia despreencher
vidas.
Ele sabia desescrever
histórias.
Eu sempre soube disso,
mas viver isso ainda
dói.
Viver isso cobra
um preço que tenho
que pagar, embora
eu nunca tenha tido
direito a nada.
Eis a verdadeira
dívida de sangue.
A dívida que pago
por não ter tido
nada.
Pagarei? Não tenho
escolha! Nunca,
nunca tive.
Quando meu sangue
secar, quem sabe
essa dívida suma,
e eu possa morrer em vão.
Não há uma história aqui,
e essa não-história
é a história de todas
as coisas que nunca
aconteceram e viraram
memórias
para uma carta
que foi escrita
para todos que
são o que não são.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2023
Capitalismo
Eu te odeio, e odeio e tanto
que esse meu ódio é acalanto
ao amor radical que inflamo.
E te odeio, com muita razão,
porque te odiar é o fim...
porque te odiar é jardim
de flores da justa revolução.
Eu te odeio, e odeio, enfim...
Eu te odeio, porque o ódio
é tudo que basta em mim.
Eu te odeio, porque é o ódio
a única arte, a única perfeição,
que radicaliza meu lasso coração.
sexta-feira, 25 de novembro de 2022
O crime
O corpo estava imóvel no canto. Marcas de violência tatuavam sua face, seu pescoço e seu corpo. Ninguém acreditou. Estavam todos atônitos olhando para aquela cena impronunciável. Foram certificar, e realmente havia morrido. Aos poucos começou-se a ouvir lamentos, depois angústia e choro. O choro foi se instalando. Depois de algum tempo ocupou todos os espaços. A tristeza era tamanha que não se sentia nada além dela. O corpo era velado (ali mesmo no canto) enquanto o choro fazia coro para a passagem. A casa de lamentações se tornou também a casa da última lembrança. {Alguém se perguntou - em meio à tragédia - quem poderia ter praticado aquela atrocidade. O crime estava consumado faltava o castigo. Quem sofreria as penas, duras e imperdoáveis, do ato irreparável?} O criminoso ainda estava lá. Não conseguiu ou quis escapar. Ficou lá enquanto todos ainda se lamentavam pelo ocorrido. A brutalidade do crime mereceria uma resposta, e ela viria após a captura do assassino. {O corpo foi transportado. Depois vieram as despedidas. Mais choro evaporou pelas chaminés inexistentes da casa chuvosa} O criminoso foi capturado. Nada disse, mas sua aura de culpa foi o suficiente. Todos sabiam, embora ele nunca fosse confessar os motivos. A inocência foi ceifada, e o castigo haveria de ser aplicado. {Banir?} O castigo foi aplicado, mas ninguém saberá se foi suficiente. Todos diziam, um dia a dor vai embora. Pode ser, mas ninguém conseguiu entender o porquê de o Hamster ter matado a pequena coelha daquela forma.
domingo, 14 de agosto de 2022
Esperando
Vestiu um terno. Calçou um sapato. Escovou os dentes. Penteou os cabelos. Cortou as unhas. Passou perfume. Colocou o relógio de pulso. Consultou o espelho, e verificou se estava faltando algo. Parecia tudo em ordem. Quis usar óculos, mas desistiu. Pensou todas as coisas que deveria pensar naquele momento. Fez o roteiro, traçou os discursos e criou metas. Estava quase no horário. Pensou em fumar, mas pensou que talvez não fosse adequado. Saiu e andou até o ponto de ônibus, e esperou. Esperou, e continuou esperando. Consultou o relógio de pulso, mas não havia nenhum. Tinha absoluta certeza de tê-lo posto em seu pulso. Agora não tinha certeza de mais nada.
quarta-feira, 3 de agosto de 2022
Um dia para lembrar
Muitas vezes esqueço como é não ser. Até iludo o céu e as louças sujas de que nada é. Isso não dura muito. Não dura nada. Todo dia é uma enganação para quem não sabe quais as cores verdadeiras das roupas, do uniforme, do traje, da máscara...
Todo dia deveria ser um dia para lembrar, nem sempre pelo lado bom. Deveria ser lembrado, em geral, para não ser repetido, quando não devesse ser repetido. Às vezes me arrependo de não ter ido a lua. A vejo da janela e me arrependo sem motivo algum.
Hoje eu deveria ter abraçado mais. Ter rido mais das histórias fantásticas que minha filha contou. Ter visitado algum parente que nunca me convidou, ou algum que de tanto convidar perdeu a esperança.
Acho que falta esperança. Esperança em dias inúteis em que se acorda com vontade de caminhar de mãos dadas sem rumo pelas ruas ensolaradas. Esperança de ouvir um riso gratuito e sentir um abraço forte que rabisca a alma de múltiplas cores. Esperança de poder não ser o que se é todos os dias. Esperança de não estar cansado e abatido o tempo todo. Esperança de não estar com fome ou medo do amanhã. Esperança de viver.
Hoje acordei arrependido de tudo que fiz, não fiz e não farei. É o hiperarrependimento! Hiperarrependimento do tempo em todas as dimensões, das coisas, dos eventos, das tragédias, das farsas, das mentiras, das verdades, do mundo, da distopia real, da natureza morta de cada dia vivo.
Amanhã é outro dia, e espero poder acordar.
segunda-feira, 2 de maio de 2022
Confissão #1
Nada é eterno
Um dia, quando o sol se pôr
E a terra sucumbir ao
Sopro do furacão radioativo
Seremos o quê? Onde?
Nada é terno.
Um dia,
A luz e o sol
Sucumbirão
Até lá,
Alguns dias durarão
O tempo que for
Preciso.
Dias Interrompidos
Dias interrompidos,
Cuspidos, enxotados
Sem reserva, Perdão
Perdição, Correção!
Esqueçamos? Jamais,
Dias como tais
Servem a um propósito.
Servem a nós e à
Utopia d’um amanhã
Que não chega,
Mas chega à alma.
Calma, Acalma!
A lama é temporária
Um dia,
Pelo sol que alumia
Veremos as flores
De todas as dores
Brotarem nos jardins
Dos confins
Da saudade
Dos tempos que se foram.