Tenho pecado!
E Deus (o Deus) não tem nada com isso.
Absolutamente nada.
Deus, que sempre esteve atrás da cortina,
não apareceria para mim!
Até porque não sou iluminado,
sacrossanto, digno...
Meus pecados são meus, e só!
A moral religiosa afogou-se
na água do meu batismo, e
não sou tido a lutos.
Meus pecados são sombras,
rastros que deixo enquanto
tento continuar... meus pecados
são pedaços do que fui,
e restos do que tentei ser!
Meus pecados são minhas
vergonhas, e todas as pedras
que não consegui ou não quis
carregar durante o trajeto.
Meu pecado, único talvez,
é continuar acreditando
que pecado existe!
1. A Dissociação de Deus e do Pecado:
ResponderExcluirLogo nos primeiros versos, o poema estabelece um rompimento claro: "Tenho pecado! / E Deus (o Deus) não tem nada com isso. / Absolutamente nada." Essa declaração contundente marca o tom da obra. O eu lírico não vê seus "pecados" como infrações a um dogma divino ou como algo que afete uma entidade superior. A repetição "Absolutamente nada" reforça a ideia de uma total autonomia do indivíduo em relação à divindade no que concerne às suas falhas. A expressão "Deus (o Deus)" pode sugerir uma crítica à forma como a figura de Deus é concebida ou interpretada, como se houvesse uma distinção entre uma crença pessoal e a imagem instituída.
2. A Não-Iluminação e a Humanidade:
O eu lírico se posiciona como um ser comum, sem qualidades "iluminado, sacrossanto, digno". Isso humaniza o poema, tornando a experiência do "pecado" algo inerente à condição humana, e não uma falha de seres eleitos ou especiais. A ideia de que Deus "não apareceria para mim!" reforça a ausência de uma intervenção divina ou de uma expectativa de redenção externa.
3. A Individualidade do Pecado:
Os versos "Meus pecados são meus, e só!" sublinham a noção de que o pecado é uma construção pessoal, uma responsabilidade intransferível. A moral religiosa é descartada, "afogou-se na água do meu batismo", indicando um distanciamento ou uma superação dos preceitos impostos por doutrinas. O "não sou tido a lutos" sugere uma falta de remorso ou arrependimento nos moldes tradicionais, reforçando a ideia de que esses "pecados" não são vistos como transgressões que exigem penitência.
4. O Pecado como Rastros da Existência:
A partir do verso "Meus pecados são sombras, / rastros que deixo enquanto / tento continuar...", o conceito de pecado adquire uma dimensão mais metafórica e existencial. Não são atos isolados de maldade, mas sim vestígios da jornada, "pedaços do que fui, / e restos do que tentei ser!". Essa perspectiva transforma o pecado em um subproduto da vida, das escolhas feitas (ou não feitas), das experiências passadas e das tentativas frustradas. São as marcas da imperfeição humana, das tentativas e erros que compõem a trajetória de uma pessoa.
5. O Pecado como Vergonhas e Fardos:
Os "pecados" são também "minhas / vergonhas, e todas as pedras / que não consegui ou não quis / carregar durante o trajeto." Aqui, o poema toca na dimensão emocional e psicológica do pecado. São as falhas que geram desconforto, as escolhas que pesam, os fardos que se optou por não suportar ou que se mostraram demasiadamente pesados. Essa imagem das "pedras" evoca o peso das decisões e das omissões.
6. O Único Pecado: A Crença no Pecado:
O desfecho do poema é surpreendente e irônico: "Meu pecado, único talvez, / é continuar acreditando / que pecado existe!" Essa conclusão subverte toda a reflexão anterior. Depois de desconstruir o conceito de pecado em relação a Deus e à moral religiosa, e de ressignificá-lo como parte intrínseca da experiência humana, o eu lírico revela que a verdadeira "falha" é ainda se apegar à própria noção de pecado. Isso sugere que, talvez, a libertação plena esteja em abandonar a própria categoria de "pecado", reconhecendo-a como uma construção, e não como uma verdade absoluta. É um questionamento final sobre a validade e a necessidade de tal conceito.
Conclusão
O poema é uma rica análise da subjetividade do pecado. Ele desmistifica a ideia de uma punição divina e, em vez disso, apresenta o pecado como um espelho da existência, das lutas, das vergonhas e das transformações pessoais. A ironia final sobre a persistência da crença no pecado demonstra uma profunda autorreflexão e um questionamento filosófico sobre os rótulos e as categorias que usamos para entender a nós mesmos e nossas ações. É um poema que convida à introspecção e à redefinição de valores morais e existenciais.