sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Capitalismo

Eu te odeio, e odeio, e odeio!
Eu te odeio, e odeio e tanto
que esse meu ódio é acalanto
ao amor radical que inflamo.

E te odeio, com muita razão,
porque te odiar é o fim...
porque te odiar é jardim
de flores da justa revolução.

Eu te odeio, e odeio, enfim...
Eu te odeio, porque o ódio
é tudo que basta em mim.

Eu te odeio, porque é o ódio
a única arte, a única perfeição,
que radicaliza meu lasso coração.

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

O crime

O corpo estava imóvel no canto. Marcas de violência tatuavam sua face, seu pescoço e seu corpo. Ninguém acreditou. Estavam todos atônitos olhando para aquela cena impronunciável. Foram certificar, e realmente havia morrido. Aos poucos começou-se a ouvir lamentos, depois angústia e choro. O choro foi se instalando. Depois de algum tempo ocupou todos os espaços. A tristeza era tamanha que não se sentia nada além dela. O corpo era velado (ali mesmo no canto) enquanto o choro fazia coro para a passagem. A casa de lamentações se tornou também a casa da última lembrança. {Alguém se perguntou - em meio à tragédia - quem poderia ter praticado aquela atrocidade. O crime estava consumado faltava o castigo. Quem sofreria as penas, duras e imperdoáveis, do ato irreparável?} O criminoso ainda estava lá. Não conseguiu ou quis escapar. Ficou lá enquanto todos ainda se lamentavam pelo ocorrido. A brutalidade do crime mereceria uma resposta, e ela viria após a captura do assassino. {O corpo foi transportado. Depois vieram as despedidas. Mais choro evaporou pelas chaminés inexistentes da casa chuvosa} O criminoso foi capturado. Nada disse, mas sua aura de culpa foi o suficiente. Todos sabiam, embora ele nunca fosse confessar os motivos. A inocência foi ceifada, e o castigo haveria de ser aplicado. {Banir?} O castigo foi aplicado, mas ninguém saberá se foi suficiente. Todos diziam, um dia a dor vai embora. Pode ser, mas ninguém conseguiu entender o porquê de o Hamster ter matado a pequena coelha daquela forma.

domingo, 14 de agosto de 2022

Esperando

Vestiu um terno. Calçou um sapato. Escovou os dentes. Penteou os cabelos. Cortou as unhas. Passou perfume. Colocou o relógio de pulso. Consultou o espelho, e verificou se estava faltando algo. Parecia tudo em ordem. Quis usar óculos, mas desistiu. Pensou todas as coisas que deveria pensar naquele momento. Fez o roteiro, traçou os discursos e criou metas. Estava quase no horário. Pensou em fumar, mas pensou que talvez não fosse adequado. Saiu e andou até o ponto de ônibus, e esperou. Esperou, e continuou esperando. Consultou o relógio de pulso, mas não havia nenhum. Tinha absoluta certeza de tê-lo posto em seu pulso. Agora não tinha certeza de mais nada.

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Um dia para lembrar

Muitas vezes esqueço como é não ser. Até iludo o céu e as louças sujas de que nada é. Isso não dura muito. Não dura nada. Todo dia é uma enganação para quem não sabe quais as cores verdadeiras das roupas, do uniforme, do traje, da máscara...

Todo dia deveria ser um dia para lembrar, nem sempre pelo lado bom. Deveria ser lembrado, em geral, para não ser repetido, quando não devesse ser repetido. Às vezes me arrependo de não ter ido a lua. A vejo da janela e me arrependo sem motivo algum.

Hoje eu deveria ter abraçado mais. Ter rido mais das histórias fantásticas que minha filha contou. Ter visitado algum parente que nunca me convidou, ou algum que de tanto convidar perdeu a esperança.

Acho que falta esperança. Esperança em dias inúteis em que se acorda com vontade de caminhar de mãos dadas sem rumo pelas ruas ensolaradas. Esperança de ouvir um riso gratuito e sentir um abraço forte que rabisca a alma de múltiplas cores. Esperança de poder não ser o que se é todos os dias. Esperança de não estar cansado e abatido o tempo todo. Esperança de não estar com fome ou medo do amanhã. Esperança de viver.

Hoje acordei arrependido de tudo que fiz, não fiz e não farei. É o hiperarrependimento! Hiperarrependimento do tempo em todas as dimensões, das coisas, dos eventos, das tragédias, das farsas, das mentiras, das verdades, do mundo, da distopia real, da natureza morta de cada dia vivo.

Amanhã é outro dia, e espero poder acordar. 

segunda-feira, 2 de maio de 2022

Confissão #1

Nada é eterno
Um dia, quando o sol se pôr
E a terra sucumbir ao
Sopro do furacão radioativo
Seremos o quê? Onde?
Nada é terno.
Um dia,
A luz e o sol
Sucumbirão
Até lá,
Alguns dias durarão
O tempo que for
Preciso.

Dias Interrompidos

Dias interrompidos,
Cuspidos, enxotados
Sem reserva, Perdão
Perdição, Correção!
Esqueçamos? Jamais,
Dias como tais
Servem a um propósito.
Servem a nós e à
Utopia d’um amanhã
Que não chega,
Mas chega à alma.
Calma, Acalma!
A lama é temporária
Um dia,
Pelo sol que alumia
Veremos as flores
De todas as dores
Brotarem nos jardins
Dos confins
Da saudade
Dos tempos que se foram.

sábado, 13 de novembro de 2021

Periódico

Foi como deveria ter sido. Um dia com chuva serena e sem sentimentos relativos. Amanhã tudo desaguará no reencontro entre o que acaba agora e o que começa em 2 minutos. Sonhei com colisões de realidades paralelas adaptadas a tudo que nunca existiu. Estive lá algum dia, estarei lá após a chuva de ontem. Quis estar onde não deveria existir um eu! Deixar a mente poluir os rios de desejo.

Amanhã o jardim de decepções terá florescido num continente em que ninguém entende o xadrez literal das não-palavras. A chuva regará a morta arte concebida na dor florescida dos junhos suicidários. Cocada estará lá abraçando aos que se despedaçaram pelo caminho e não tiveram escolhas. Nenhum tempo existirá, mas os frutos ilusórios serão recolhidos quando ninguém mais esquecer do céu.

sábado, 23 de outubro de 2021

A miséria

Entrou, sem alarde, na pura calmaria
do pleno verão e ninguém acreditou.
Ninguém, absolutamente, acreditou
No que, anos depois, se consumaria.

Ela entrou terrivelmente desacreditada,
Até diziam “ora se não é a coitadinha”
Que chega como grande tempestade,
Mas não passa de mera chuvinha.

Ela não era gatinho, não era leão.
Não era medo, não era desilusão.
Não era a natureza da incipiência...

Talvez o rastro pecaminoso do mal,
Talvez o genocídio da imprudência,
Que reconstruiu a ideologia do fatal.

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Obrigado!

Obrigado por me matar
sem ar, sem alimento, sem teto,
sem liberdade, sem trabalho, sem direito!

Obrigado por me matar
todo dia,
toda hora.

Obrigado por me matar
com motivo, sem motivo,
com ódio e sem esperança.

Obrigado por me matar
e não me deixar viver,
neste país que nunca foi meu.

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Novo frio

Sim, ordinária ingenuidade!
Nenhuma arma é fortaleza,
e nenhuma reza é limpeza
para esta servil plasticidade.

Rasgai teus versos e verbos,
tomai teu sangue em notas
que as lutas são bancarrotas
dos perjúrios cegos e soberbos.

E vingai tua febril imagem,
do tempo que nunca existiu,
e para onde não há passagem,

pois é hora, e o dia sucumbiu...
é hora, e a noite segue viagem
costurando-se a um novo frio.

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Antífolo de Siracusa

Não há senão remorso e piedade,
na efígie do Antífolo perdido
que vive às margens (e iludido
da crença de vindoura caridade.

Antífolo logra estar imbuído
de natureza, e fortuna, e aliança
com a terra, o céu e a balança
do desejo de fazer-se escolhido.

Na comédia de cantigas e orações
que ressoam da caatinga humana,
Antífolo faz-se várias comunhões

para lograr sua amada sultana
e nas minas gerais de desilusões
só canta ao seu amor: Luciana.

quarta-feira, 30 de junho de 2021

Impossibilidades

Interrompendo o caos da impossibilidade, perguntas se há um fim e um meio nos destroços daquela  atrocidade. Ela sorri para o nada, e se perde no azul espiral que se confunde com a calçada. Parecia perdido, o palhaço sorria atrás da cortina fechada e o trânsito de corpos era "só" mais uma palhaçada. Ninguém percebia o teto de gesso, e a madeira ranger no fundo do poço. As paredes sempre estiveram quebradas e isso era só o que importava para quem  não tinha nada além de paredes imperfeitas no castelo dos sonhos. Quem viu esse castelo? Ninguém viu, mas dizem que há pedaços dele sendo destruídos por ai.

Acorrentado

Agora nada é calmo, mas nem sempre foi assim. A tormenta cresceu e tudo se tornou um pesadelo para qualquer um que tenha o mínimo de (...). Sim (...) a vida agora é um barril de (...) com cheiro formol. Ontem a fome veio dormir aqui perto, e parece que muita gente deu (involuntariamente) abrigo para ela. Vi de longe, quis expulsá-la, mas parece que há mais (...) do que (...). Amanhã não será um outro dia, não será. Enquanto a fome estiver por aí... Há muito o que ser feito, e a elite fala demais, fala demais e só fala demais.

Confusão

Rasgai as cartas, os versos, as canções,
enquanto ainda remanescem os sabores
dos dias, em que cultivavas acores,
e das noites, em que brindavas ações.

Agora já não existe mais esperança
as lágrimas de dias inconsequentes
caem entre as páginas eloquentes
de um futuro puído e sem pujança.

Mas deveríamos bradar a novas eras,
acordar bons dias de luta, e ternura
revigorando a guerra de todas as feras,

e gestando o ódio na geração futura
de que a matança dos operários
é o negócio lucrativo dos bilionários.

(SObre)vivendo no inferno

Sobreviverás ao caos
e tudo que engana será venerado
pelos que cercam o caos.

Sobreviverás à prisão
e tudo que mata será elevado
pelos que regozijam a prisão.

Sobreviverás à tentação
e tudo que polui será louvado
pelos que exaltam a tentação.

Sobreviverás a tudo,
e tudo que destrói será mostrado
pelos que querem (para si) tudo.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Eu te amo, mas vou embora

O céu escureceu minha razão,
já não tenho paz, nem ilusão.
Estou abandonado na sarjeta,
sem esperança nesse planeta.

Não quero mais viver essa situação,
a vida já não é como já foi,
preciso libertar essa imensidão
de dor que cobre o peito de torpor.

Estou desesperado,
perdido nessa hora,
vê se não se arrepende...
pois eu te amo,
mas vou embora.

Vou vivendo cada dia "como dá",
vivendo cada hora "como é",
viver já não é mais "como será"
Vivendo já não sei "como quiser"

A luz que ilumina a rua torta,
a torta que desfaz com a ilusão,
a vida é quase e sempre vida-morta
perdida na ilusão da ilusão.

Sem tempo de iludir a previsão,
só vejo que prevejo a iminência
da festa que não acaba no sertão
do tempo que não é de paciência.

Eu te amo, mas vou embora...
pra onde o mar acalma meu pesar,
pra onde o novo tempo seja o "agora".

Eu te amo, mas vou embora...
para onde tudo possa se refazer,
como refez meu desejo de te olvidar,
e a vontade de renascer.

domingo, 17 de janeiro de 2021

Poema de Adaptação

[...][...][...]
:: Dormiu depois de acordar!
[...]
:: Levantou depois de deitar!
[...]
:: Escovou os dentes depois de levantar!
[...]
:: Comeu o desjejum depois de escovar!
[...]
:: Trabalhou depois de desjejuar!
[...]
:: Almoçou depois de trabalhar!
[...]
:: Trabalhou depois de almoçar!
[...]
:: Jantou depois de trabalhar.
[...]
:: Escovou os dentes depois de jantar!
[...]
:: Dormiu depois de escovar!
[...] [...] [...]

domingo, 3 de janeiro de 2021

Pode ir embora

Pode ir embora,
os dias contigo são tormentosos
e tudo parece desabar.

Pode ir embora,
já não entendo o que são
as coisas que não deveriam ser.

Pode ir embora,
e vai enquanto o novo sol
nasce na curva da escuridão.

Pode ir embora,
a escuridão vai passar,
e o pesadelo de reviver se foi.

Pode ir embora,
pois o céu não é mais solução,
e ninguém espera viver em vão.

domingo, 20 de dezembro de 2020

Irracional

A quem devo o temor destemido? Eu que já desbravei vários anos de fome e reinvenção, me vejo, outra vez [outravez²], descaído entre o pântano de desinformação e pela floresta de mentiras mal-ditas. Já não sei o que é "não-ser" e sei menos o que é (isso). A vida parece rebocar a boca de tijolos afetuosos e decadentes. O céu (ó céus) já não tem mais a sensibilidade de dizer dos amargores dos dias profusos. Eu quis ser o ser dos seres. Quero! Só não posso ser o que não soluça através das nuvens fantasmas de sons agrotóxicos. Rastejo entre paradoxos. O bem é o mal, e não há mal (mau-mau) nenhum em não parecer se incomodar com a tragédia anunciada pelo vidro malfeito do relógio cósmico. Tudo parece inerte frente ao acelerado terreno de mutações. Tudo parece derretido na lama de tensões bélica entre o desejo de não-ser esquecido pelo tempo dos tempos. Eu que já vivi entre a cruz e a cruzada, entre o mistério e a inanição, entre o tempo e a ilusão, entre os entretantos dos menores espaços sociais... Eu que já fui até o infinito da ruína liberal, agora me afogo no pesadelo de lavar roupa entre um temporal de elogios. Quero ver, vertentes, vertigens, verdades, ver-duras, verbos sobre um céu que desbotou sobre o solo infértil do paraíso restaurado no chão do dia desfigurado.

terça-feira, 21 de abril de 2020

As pessoas

As pessoas marcham,
e pedem (sem saber)
que o que querem
não querem ter.

As pessoas marcham,
somam vozes,
pedindo (sem saber)
para que todos se calem.

As pessoas marcham,
e na (im)pureza
da tolice ignóbil
perdem a razão...
e sem ela, em vão,
tijolo a tijolo
constroem a base
da própria destruição.